Escrito por: Concita Alves

RN: MPT-RN investiga empresária por assédio eleitoral: "Não me mande currículo"

​Com 42 denúncias acumuladas no RN, MPT reforça que perseguição e ameaças de demissão por posicionamento político pós-eleição são ilegais e puníveis.

Fábio Rodrigues / Agência Brasil

​A democracia e a liberdade de expressão no ambiente de trabalho continuam sob o ataque patronal no Rio Grande do Norte. O Ministério Público do Trabalho no RN (MPT-RN) instaurou procedimento para investigar a empresária Camila Rodrigues, proprietária de marcas de moda feminina na Grande Natal, após a publicação de um vídeo com explícito teor discriminatório e antidemocrático nas redes sociais.

​Logo após a divulgação do resultado das Eleições 2026, no domingo (25), a empresária declarou abertamente que recusaria trabalhadores por suas convicções políticas: “Se você é petista, não me mande currículo”, afirmando ainda ser “totalmente intolerante ao petista”. Diante da forte repercussão e do repúdio público, a empresária recuou e publicou notas de retratação pedindo desculpas.

​O episódio reflete uma postura truculenta que não é isolada, em todo o país as redes sociais mostraram vários casos da trend bolsonarista. Na terça-feira (27), o empresário Victor Cunha, dono de uma lanchonete em Natal, também precisou vir a público se retratar após declarar em suas redes que “não contataria mais serviços de petistas para sua família”, e que “funcionários petistas deveriam pedir demissão” caso o patrão fosse bolsonarista.

​Cenário nacional revela alarmante perseguição pós-eleitoral

​O cenário de abusos no Rio Grande do Norte reflete uma onda preocupante em todo o país: o Ministério Público do Trabalho (MPT) já recebeu mais de 2.300 denúncias de assédio eleitoral neste ano. No estado, o MPT-RN contabiliza 42 denúncias registradas até o dia da votação — parte delas resultando em ações judiciais e liminares para a remoção de conteúdos ofensivos da internet.

​Contudo, as ameaças e tentativas de coerção continuam mesmo após o pleito, na chamada "fase punitiva", em que empregadores tentam concretizar retaliações contra quem exerceu livremente o seu direito de voto.

​O procurador-chefe do MPT-RN, Gleydson Gadelha, enfatizou que a dependência financeira do trabalhador não pode ser instrumentalizada como arma de opressão ideológica:

​“O ambiente de trabalho não pode ser convertido em um curral eleitoral moderno. A ameaça ou dispensa motivada por divergência eleitoral configura uma violação flagrante da liberdade de voto e um atentado direto à democracia, condutas que o Ministério Público do Trabalho não hesitará em reprimir”, destacou Gadelha.

​O procurador explicou ainda que a prática de represálias pós-campanha permanece caracterizada como assédio eleitoral. Caso as irregularidades sejam comprovadas, os responsáveis enfrentarão severas sanções administrativas, incluindo multas que podem alcançar a casa dos milhares de reais, além do encaminhamento dos casos ao Ministério Público Eleitoral, Ministério Público Estadual e órgãos de fiscalização do trabalho.

​CUT-RN em combate direto contra o arbítrio patronal

​O presidente da CUT-RN, Irailson Nunes, repudiou com veemência as práticas abusivas dos empresários e reforçou que a central não aceitará nenhum tipo de perseguição contra a classe trabalhadora:

​“Não aceitaremos que o poder econômico tente impor censura ou punição ao direito sagrado e constitucional do trabalhador de escolher seus representantes. O que esses empresários fazem é uma tentativa nefasta de ressuscitar o coronelismo e transformar o local de trabalho em um curral eleitoral. A CUT-RN está atenta, ao lado do MPT e MTE, orientando a base e pronta para denunciar qualquer patrão que audaciar coagir, demitir ou discriminar um trabalhador por sua posição política. Respeitem a classe trabalhadora e a democracia!”, afirmou Irailson.

​O que é o Assédio Eleitoral e como denunciar

​O assédio eleitoral ocorre sempre que chefes, gestores ou proprietários de empresas usam seu poder econômico ou hierárquico para coagir, constranger, ameaçar ou induzir trabalhadores a votar, deixar de votar ou apoiar determinada candidatura ou partido.

​Gadelha ressalta que qualquer tipo de discriminação — seja por posicionamento político, ideologia, gênero, raça ou religião — fere frontalmente os direitos fundamentais do cidadão na relação de trabalho.

​A classe trabalhadora não deve se calar diante das arbitrariedades patronais. Qualquer violação ou ameaça à sua liberdade política pode e deve ser denunciada ao MPT a qualquer tempo, garantindo o sigilo e a defesa do direito inalienável ao voto livre e soberano.

A CUT é contra a cultura do cancelamento, e defende que o ambiente digital deve ser utilizado para o debate democrático e para o combate à desinformação, opondo-se à lógica do justiçamento digital que ignora o direito de defesa e viola a dignidade.

Como denunciar?

 Faça aqui sua denuncia: https://www.prt21.mpt.mp.br/servicos/denuncias

Central Alô Trabalho 158, canal de atendimento do Ministério do Trabalho e Emprego.